domingo, 29 de março de 2009

Líderes que andam de “muleta”

No último post que escrevi falei sobre como deveriam ser os programas assistenciais do governo, em minha concepção. Basicamente acredito em um ciclo virtuoso que inicia no atendimento das necessidades básicas do indivíduo, passa pela educação e profissionalização dele para que, em seguida, o mesmo possa exercer sua cidadania e lutar, inicialmente, pela sua sobrevivência (e de sua família) e posteriormente pelo seu crescimento e emancipação.

Na semana passada, logo após ter escrito este post, a Katy, uma amiga e colaboradora da Cadsoft, me procurou para comentar sobre o texto. Durante o papo ela lembrou de uma palestra do Roberto Tranjan, consultor, educador e autor que criou o modelo de gestão que escolhemos para nossa empresa.  Nesta palestra o Roberto falou sobre sua experiência como consultor de empresas por mais de 10 anos e da sua frustração nesta atividade. Sempre que ele desenvolvia um trabalho de consultoria, as coisas na empresa-cliente se encaixavam e tomavam um rumo adequado. Porém, depois de algum tempo (meses ou anos, dependendo do caso) os líderes costumavam chamá-lo de volta para ajudá-los a colocar suas empresas novamente no lugar e, quando ele chegava, percebia que os problemas eram, em sua maioria, os mesmos que ele havia ajudado a corrigir em sua primeira passagem. Depois de muito se frustrar ele decidiu abandonar o trabalho de consultor e criou uma empresa de educação para negócios. Hoje sua principal atividade é educar lideres para liderarem suas empresas, sem que precisem de uma “consultoria” para colocar a empresa no rumo, de tempos em tempos.

A Katy lembrou desta história porque ela fez um link muito interessante entre essa experiência do Roberto e o último post que escrevi. Em sua percepção, no âmago da questão, os problemas relatados são os mesmo, pois em ambos os casos alguém de fora (seja um consultor ou seja o governo) ajuda, mas não ensina, criando um ciclo de dependência contínua.

Como este post de hoje é voltado para o tema liderança, baseado nesta conexão que foi relatada acima eu reflito: Quantas vezes, enquanto líderes, nos apoiamos em muletas, desculpas ou “consultores” para exercerem a nossa função, terceirizando nossa responsabilidade assumida perante outras pessoas e convencendo-nos de que é o melhor caminho?

Consultores devem ser contratados para nos ensinar algo que não sabemos. Assim que terminam seu trabalho de educação devem ser avaliados pela falta que não vão fazer em nossa empresa. 


Mas, se você prefere andar de muleta...


segunda-feira, 23 de março de 2009

Fome-zero, cárie-zero, furo na roupa-zero...

Semana passada tive um papo muito interessante com um amigo e colaborador da Cadsoft, o Bernardo. Apenas para contextualizar, o Bernardo é afro-descendente e eu sou ítalo-descendente (existe isso?). Começamos a conversar, nem sei o porquê, sobre o regime de cotas e um provável protecionismo para classes (ou raças) menos favorecidas. Ao longo da conversa nosso papo acabou se desviando das cotas para o programa fome zero. O Bernardo é a favor do fome-zero (e vou me limitar a dizer isso, deixando o espaço deste blog para ele manifestar os seus motivos) e eu sou totalmente contra, no modelo que ele é apresentado atualmente. Tem uma velha história, que acho que aprendi com meu pai, que diz assim: 

“Temos que ensinar as pessoas a pescarem o seu próprio peixe, para que dependam única e exclusivamente de seu esforço para se alimentar, sobreviver, prosperar. Se damos o peixe, o dia que a nossa fonte secar, prejudicaremos também as pessoas que dependiam deste peixe e isso é irresponsabilidade da nossa parte.”

Apesar de ser uma história antiga e conhecida por muitos, ela é bem atual no contexto desta discussão. Em minha opinião, o fome-zero (e todos os programas assistencialistas) dão o peixe, mas não ensinam a pescar.  Ao entregar o peixe às famílias mais necessitadas, não expandimos suas possibilidades, limitando-as àquele peixe. Não criamos oportunidades, criamos dependência. Não criamos um “pais do futuro”, criamos um povo sem identidade, sem significado e facilmente manipulado. 

Até posso acreditar que a intenção do programa fome-zero foi boa, mas o formato, não foi. Em minha concepção o formato de um programa como este deve ser o da re-socialização. Numa primeira fase é valido dar comida, já que estão passando fome. Mas, num período determinado de tempo, temos que ensinar uma profissão, criar oportunidades de emprego e possibilitar às famílias que sejam responsáveis pelo seu próprio sustento. É um ciclo virtuoso de geração de pessoas mais conscientes, oportunidades de trabalho e conseqüente geração de riquezas para o país.

No dia seguinte a esta discussão, assistindo o Jornal “Bom dia Brasil” da rede Globo, logo lembrei do Bernardo ao ouvir a seguinte notícia: “Governo libera 40 milhões de reais para compra de escovas de dentes para a camada mais pobre da população”. Em minha visão, é o Cárie-zero. E depois disso? Virá o furo na roupa-zero, o sem teto-zero, o sem entretenimento-zero?

Temos que repensar este modelo de gestão de nosso país, para criamos uma nação mais consciente, menos manipulada e que luta e se orgulha ao alcançar seu sustento e sua prosperidade através de seu próprio esforço.


terça-feira, 10 de março de 2009

Dia internacional da mulher: Comemorar ou se envergonhar?

Dia 08 de março de 2009, como acontece em todos os anos (ou quase todos) há mais de 100 anos, foi comemorado o dia internacional da mulher. Bom, se alguma mulher esperou os meus parabéns, se frustrou. Este dia poderia ser chamado de dia internacional das conquistas econômicas, políticas e sociais das mulheres, ou o dia em comemoração às trabalhadoras queimadas no incêndio na fábrica de Triangle Shirtwaist, mas não poderia ser o dia internacional da mulher. 

A primeira coisa que vem em minha cabeça quando falam em “dia da mulher” é: “que ótimo, todos os outros dias são dos homens”. Mas brincadeiras a parte, isso não tem nada de ótimo. Isso é vergonhoso. Eu vejo pessoas entregando rosas às mulheres neste dia. Só neste dia? Só assim para elas merecerem uma rosa? Só assim para elas merecerem nossa atenção, nosso carinho, nosso agradecimento por existirem em nossa vida? Não. Todos os dias deveriam ser o “dia da mulher”. Assim como todos os dias deveriam ser o dia do homem, do ser humano. 

Uma coisa é ter o dia do profissional (dia do analista de sistemas, dia do médico, dia do funcionário público) pois estamos homenageando uma classe, pequena dentre tantas outras (apesar de que eu não vejo o menor sentido nestas datas) mas outra coisa é o dia da mulher, dia do índio, da consciência negra. Parece que são alas excluídas, que são lembrados apenas neste dia. E para falar a verdade, é o que acontece: Só lembramos do índio no dia do índio, só lembramos que existe a consciência negra, que luta pelos direitos de igualdade, no próprio dia e só lembramos do quanto as mulheres podem ser especiais em nossa vida, no dia da mulher. Não comemoro nenhum destes dias!

Acho uma vergonha existir um dia para que pessoas sejam lembradas. Isso serve apenas para confortar a nossa consciência, amenizando os atos equivocados que tomamos em nosso dia a dia quando maltratamos ou negligenciamos nossa mãe, esposa, amiga ou irmã (ou um índio, ou um negro). No dia comemorativo entregamos uma rosa, vestimos uma roupa de índio ou lembramos que a feijoada foi inventada pelos negros, e fica por isso mesmo. 

E que venha mais um ano de consciência limpa e alma tranqüila.