domingo, 1 de novembro de 2009

O deslocamento da identidade cultural


Durante o meu mestrado, quando eu estava cursando uma disciplina sobre formação de formadores, tive que ler um livro chamado “A identidade cultural na pós-modernidade”. É um livro fascinante que fala sobre a mudança de perspectiva das pessoas sobre sua identidade cultural. Basicamente o livro mostra a evolução da busca do ser humano pela sua identidade cultural, lembrando que há muitos anos atrás, nos definíamos pela nossa vila, ou pela nossa cidade e mais tarde pelo nosso pais. Porém, com a globalização, principalmente nos meios de comunicação e na internet, nossa identidade cultural deixou de ser através de nosso local de nascimento e passou a se construir através das coisas que nos identificamos. Não importa se é um lugar, um estilo de vida, seguidores de um time, uma pessoa ou religião. A verdade é que nossa identidade agora é multicultural e globalizada.

Mas porque estou falando este assunto? Um mês atrás, quando ainda estava no Brasil, precisei tirar uma segunda via da minha certidão de nascimento, o que só pode ser feito no cartório que você foi registrado. Aproveitando um tempo livre, fui até o cartório do Brás (onde fui registrado) e fiquei um pouco incomodado: Devia ter umas 30 pessoas lá dentro, sendo uns 15 descendentes de bolivianos, uns 10 descendentes de coreanos e apenas uns 5 brasileiros, contando comigo. É claro que quanto mais pessoas, mais iria demorar para eu ser atendido e, diante deste cenário minha primeira reação foi a seguinte: “O que este bando de coreanos e bolivianos estão fazendo no meu país?”

Um mês depois, embarquei para Londres, onde estou vivendo agora, e percebi o quanto esta cidade é, assim como São Paulo, multicultural. Porém, se em São Paulo encontramos pessoas de 20 países, aqui encontramos facilmente de 40 ou 50 países diferentes. Desde coreanos e mongóis, lá da Ásia, até brasileiros e colombianos, lá da America do Sul. O que eu pude perceber? Que apesar de Londres ser uma cidade de portas abertas para povos de todas as origens, os britânico (ou londrinos talvez) em geral não gostam muito de não europeus. As vezes chegam a ser mal educados com quem é de fora ou quem não fala muito bem a língua. Diante de uma situação destas eu pensei: Nossa, que povo mal-educado. Estamos aqui gastando nosso dinheiro no país deles e eles ainda nos tratam mal?

Conclusão, quando eu estava no “meu” país, não gostei de ter outros povos por lá, e agora que eu estou em outro país, não gostei de alguém daqui não ter gostado de eu estar aqui. Um pouco confuso, mas foi exatamente isso que aconteceu. Por fim, o que posso compartilhar como aprendizado disso tudo e voltando a me referir à parte inicial do post, temos que mudar nossa visão de identidade cultural e principalmente de tolerância. Não podemos colocar barreiras para pessoas de outros povos ou culturas, tão pouco julgá-los por onde estão. Temos que nos acostumar que, com a globalização, as pessoas buscarão estar onde se identificam, onde estejam bem, onde se sintam felizes, não importa se no meio da Ásia ou no extremo sul da America do Sul.

Afinal, o planeta é de todos nós.

domingo, 25 de outubro de 2009

Como é bom poder confiar

Finalmente aconteceu. Depois de quase três anos planejando uma viagem, no dia 23/10/2009 embarquei para Londres onde ficarei por cerca de quatro meses. Durante estes três anos que antecederam esta viagem, quando eu comentava com as pessoas sobre o período que ficaria fora, dentre várias perguntas duas delas sempre acabavam por surgir:

  1. O que você vai fazer lá?
  2. E a Cadsoft? Como vai ser?

A resposta da primeira pergunta era sempre a mesma: “Um breve sabático com imersão na língua inglesa.”.

Mas eu sempre fugi da segunda resposta. Era evasivo, nunca dava detalhes e “enrolava”, até conseguir trocar de assunto. Mas porque? Porque eu queria falar sobre isso somente agora.

Esta pergunta sempre vinha acompanhada de dois vieses. Um deles era a dúvida se eu voltaria para a Cadsoft. Bom, a resposta é simples: Claro! Amo o que faço, compartilho de uma ideologia única e mais importante do que tudo, sou apaixonado pelas pessoas que formam esta comunidade.

O outro viés era o seguinte: “E como a Cadsoft vai ficar neste período, já que você tem uma posição de liderança?” Resposta mais simples ainda: Confiança!

A Cadsoft é formada por pessoas que compartilham valores, que se comprometeram com uma causa e que sabem claramente qual a nossa estratégia. Conta também com um time de líderes que, além de estar em constante evolução, é muito competente. E claro, tem o seu maestro, já que todo orquestra precisa de um. Fácil de entender porque confiança?

Vou ter saudade, mas aquela saudade boa, de quem quer muito voltar. Voltar porque a cada dia “descubro e conquisto” novos amigos na Cadsoft. A cada dia eles me “entregam” interesse e me “surpreendem” com o cuidado. Aliás, “cuidado que me fideliza” e me obriga a cada dia melhorar, me “criar”, me recriar e sempre me “modernizar” porque a “evolução” é necessária, sempre em busca da “consolidação”, seja do caráter ou das relações. Cada pessoa que faz parte desta comunidade é o seu “sustento” e é impossível “imaginar” uma Cadsoft sem se “desenvolver e sem cuidar” de cada um de nós.


Até breve Cadsoft!


sábado, 26 de setembro de 2009

Marmelada não era para ser doce?


Pouca vezes na minha vida senti vergonha de ser brasileiro. Em todas que senti foi muito ruim porque desde que sou muito pequeno me lembro de meus pais me ensinarem a seguinte ordem de importância das coisas: Deus, Pátria e Família. Seguindo esta lógica eu preciso acreditar em um Deus (seja ele qual for, mesmo que uma força maior), amar e cuidar da minha pátria para então poder constituir e cuidar de minha família.

Voltando ao tema central deste post, senti vergonha de ser brasileiro ao saber da “marmelada” na Fórmula 1. Sou apaixonado por esporte e amante passional de Fórmula 1. Assim como em qualquer tema de nossa vida acredito que no esporte precisamos de integridade e ética. Muitos falaram sobre a pressão que o Nelson estava sofrendo, que no lugar dele poderiam agir assim e que não deveríamos julgá-lo. Mas isso me parece proteção da imprensa só porque ele é brasileiro. Por muito menos “destruíram” o Schumacher (quando ele passou o Rubinho no último segundo da prova, por ordem da Ferrari).

Isso me faz pensar no problema central do Brasil: passividade. No Brasil temos o péssimo hábito de encontrar desculpas verdadeiras para falta de ética, de justiça e de caráter. E parece que neste episódio estamos fazendo isso de novo. Amanhã o fantástico vai veicular uma entrevista do Reginaldo Leme com o Nelson Piquet “pai”. Gostaria muito de acreditar que ele vai dizer, com todas as letras, que o filho errou e que merece pagar pelo erro. Porém tenho a impressão de que ele vai dizer que o filho errou, mas que era muita pressão para um “garoto” de 24 anos e que não sabia bem o que fazia. Bom, então ele não deveria estar dirigindo um carro que pode chegar a 300 km/h e colocar em risco a vida de mais 19 pilotos.

Para o Nelson “filho” desejo compaixão, porque infelizmente não acredito que ele vai aprender o que precisa, já que não vai pagar pelo seu erro.

Para o Nelson “pai” deixo uma pergunta: Porque este assunto só veio a tona depois que seu filho foi demitido da equipe?

Para os brasileiros que amam nossa pátria desejo consciência. E fé!


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sobre Competência e Atitude


Na Cadsoft trabalhamos muito o desenvolvimento das competências das pessoas. Isso faz parte da nossa cultura. Este desenvolvimento se dá através de varias formas, mas o balizador para avaliação da evolução de cada pessoa é uma metodologia chamada CHA. Esta metodologia define que a competência é formada por três conceitos: Conhecimentos, Habilidades e Atitudes. Conhecimento significa “Saber” (conhecimentos adquiridos no decorrer da vida, nas escolas, universidades, cursos etc). Habilidade significa “Saber fazer” (todo o conhecimento que praticamos aperfeiçoado à habilidade). Atitude significa “Querer fazer” (comportamentos que temos diante de situações do nosso cotidiano e das tarefas que desenvolvemos no nosso dia-a-dia). Desta forma, uma pessoa com muito conhecimento mas sem a atitude necessária para colocar este conhecimento em prática, ou sem a habilidade necessária para utilizar este conhecimento, não tem a competência completa.

Um tempo atrás estava conversando com o Prof. Calixto (meu pai) sobre esta metodologia. Falávamos sobre o que era mais importante entre as três letras (C.H.A.). Estávamos com uma divergência sobre o assunto e acabamos não terminando nossa conversa e com isso não chegamos a uma conclusão.

Semana passada recebi da Marina (amiga e colaboradora da Cadsoft ) um artigo muito interessante com o seguinte título: “The hierarchy of success – A hierarquia do Sucesso”. Neste artigo o autor inicia a explicação do ultimo nível da hierarquia (execução) até o primeiro nível (atitude). A idéia é muito interessante e, após muita reflexão, experiências vividas e leituras de textos, livros e blogs, cheguei a conclusão que a atitude é, em minha opinião, a letra mais importante. A atitude possibilita o ser humano a ir atrás dos conhecimentos e das habilidades que lhe faltam para atingir um objetivo.

Ponto para o Prof. Calixto (mais um, claro) que desde o início da nossa conversa defendeu que a atitude era a mais importante das letras!

Para finalizar compartilho uma citação de Martin Luther King que entendo ser sobre a evolução de competência: “..não somos o que deveríamos ser, não somos o que iremos ser, mas graças a Deus não somos o que éramos.."

Boa semana e “Boas Atitudes”!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Inteligência e Maturidade

Há algumas semanas eu estava conversando com o Alexandre da Cadsoft, amigo e líder do processo de trabalho que chamamos de “Descobrir e Conquistar”. Estávamos discutindo sobre inteligência e maturidade. Como é bom trabalhar com pessoas inteligentes, mesmo que ainda imaturas. Imaturidade neste contexto estava esta relacionada principalmente com a falta de experiência. Falávamos que é melhor ter pessoas muito inteligentes e imaturas do que pessoas maduras mas que não fazem o uso adequado de suas inteligências para solucionar todos os “problemas” que precisamos administrar diariamente.

Esse papo me fez lembrar uma lição que tive, há uns 5 anos atrás, quando estava em uma reunião com o gerente de planejamento de um cliente que atendo em São Paulo. Nós estávamos conversando sobre a dificuldade que estávamos tendo em um projeto e um dos motivos que eu apontei foi a velocidade (muito acelerada) que uma das pessoas que estava a frente do projeto impunha para toda a equipe. E ele me disse, com toda a tranqüilidade que lhe era peculiar: “Daniel, eu prefiro trabalhar com pessoas que eu precise segurar do que com pessoas que eu precise empurrar”. Engoli seco, refleti, dei razão a ele e fomos para o próximo tópico da reunião.

Voltando ao papo com o Alexandre, concluímos que realmente a lição acima é valiosa. Como é bom trabalhar com pessoas inteligentes e que temos que segurar (ajudar a controlar o ímpeto que ainda não é administrado pela falta de experiência) do que pessoas que temos que ficar o tempo todo empurrando.

A nossa conclusão final foi sobre a importância de escolher adequadamente as pessoas e suas inteligências necessárias para desempenhar cada atividade da nossa empresa.


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Indicadores são para aprendizado e não para controle

Tem uma máxima que diz: “Nós fazemos aquilo que medimos”. Infelizmente nos últimos meses tenho constatado que esta frase tem muito sentido. Fazendo uma reflexão nos motivos desta triste realidade, cheguei às seguintes possibilidades:
1. É da natureza humana
2. É falta de disciplina
3. É falta de compromisso ou significado
4. É sobrecarga 

Aceitar a primeira hipótese é muito cômodo. Não tenho certeza da quarta hipótese pois se estivermos medindo tudo que fazemos, tenho convicção que faremos. Resta a questão da disciplina e do compromisso.

Disciplina é o controle que vem de dentro (é o autocontrole) e ao utilizar indicadores externos para substituir este controle que deveria vir “de dentro”, estamos delegando nosso destino ao “outro”.

Compromisso é difícil de ser medido, mas é fácil de ser percebido. Se é necessário um indicador para saber se algo esta sendo feito é porque as pessoas não deram a devida importância para aquela atividade. Pode ser falta de significado? Até pode, mas não consigo entender uma pessoa comprometida com algo que não busque saber o significado do que ela faz. Logo, se tenho compromisso, procuro saber o significado do que eu faço.

Indicadores são para aprendizado, para correção de rotas, para melhoria continua de processos. 

Mas, infelizmente, por algum dos motivos acima (ou outros que não consegui pensar) acabam sendo usados como controle.

Uma pena!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Admirar a vida que soubemos fazer – 20 anos de Cadsoft!


No dia 30 de junho de 2009 a Cadsoft, empresa que trabalho ha quase 10 anos, comemorou 20 anos de estrada. Num país que tem média muito baixa de “sobrevivência” das empresas, chegar a 20 anos de idade é muito especial. E para comemorar o nosso aniversário tivemos algumas comemorações que vão ficar pra sempre em nossa memória. No dia 29/06 paramos o bate papo semanal do Glauson com toda a equipe (conhecido como “acolhida”) e fizemos um agradecimento especial aos fundadores da empresa: o próprio Glauson e o Rodrigo. Entregamos a eles muitos abraços, um vídeo comemorativo (feito pela equipe da Cadsoft), uma festa no estilo “buteco mineiro” e muita, muita fé no futuro que ainda esta por vir.

Por uma escolha muito feliz da Marina, que ficou responsável por editar o vídeo, a música de fundo foi “Dessa vez” do Nando Reis, que inicia assim: 

“É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer. É bom olhar pra frente. É bom nunca é igual, olhar beijar e ouvir cantar um novo dia nascendo.”

E porque a escolha da musica foi tão feliz? 

Há poucos dias li um texto do Paulo Coelho chamado “Encerrando Ciclos”. Neste texto ele reflete sobre as etapas da nossa vida. Reflete sobre a importância de saber quando uma etapa chega ao final e é necessário abrir uma nova etapa, deixando para trás os momentos da vida que já se passaram.

Pensando sobre o texto acima percebi que, tão importante quanto saber encerrar um ciclo, é saber “admirar a vida que soubemos fazer”. E encerrado este ciclo, é bom saber “olhar pra frente”, sabendo que o futuro nunca é igual e sabendo também que é no futuro que habitam os nossos desafios, nossos planos, nossos projetos e as realizações que ainda estão por vir.

Penso que, passados estes 20 anos, a Cadsoft encerra mais um ciclo e abre as portas para um novo futuro. Claro que não vamos nos deitar no sucesso do passado e esperar que o futuro se repita, mas temos que saber admirar o que construímos e aproveitar os erros que cometemos nestes 20 anos para que, com muita FÉ, possamos comemorar 200 anos... Em breve!

PARABÉNS EQUIPE CADSOFT!!


domingo, 5 de julho de 2009

“Seje” bem-vindo ao Museu da Língua Portuguesa


É, você pode não acreditar, mas foi assim que fui recebido, neste domingo, pelo recepcionista do Museu da Língua Portuguesa, que fica na estação da Luz, em São Paulo, ao lado da Pinacoteca do estado.

O Museu da Língua Portuguesa, conforme descrito em seu site, adota a museografia a partir de um dado muito simples: seu acervo, nosso idioma, é um “patrimônio imaterial”, logo não pode ser guardado em uma redoma de vidro. Hoje o Brasil já dispõe de legislação específica que permite o tombamento de tal patrimônio, reconhecidamente importante para a manutenção e valorização da nossa identidade cultural.

No primeiro andar, que abriga exposições itinerantes, está em cartaz uma homenagem ao ano da França no Brasil, mostrando toda a influência da língua francesa em nossa língua.

O segundo andar, voltado para a “genealogia” da Língua Portuguesa, explica sua origem desde a sua língua mãe, chamada indo-europeia, passando pelo latim, latim vulgar e o português colonial. Finalmente somos inundados de informação sobre a influência do Tupi, Tupinambá (ambas línguas faladas pelos indígenas que viviam em nosso território), do bando (língua mãe de muitas línguas africanas, trazida pelos escravos daquele continente) e de tantas outras línguas vindas junto com os imigrantes que procuravam, no Brasil, a esperança de uma vida melhor. Todas estas influências formaram o que hoje conhecemos como a Língua Portuguesa Brasileira. 

No terceiro andar entramos em contato com uma diversidade de formas, cores, sons e, claro, palavras, muitas palavras, que buscam expressar a grandeza da nossa língua através de músicas, poemas e trechos de obras escritas em nossa língua. 

É claro que a visita é de grande valia, mas, assim como em qualquer projeto, atividade ou tarefa que fazemos em nossa vida, a atenção aos detalhes é determinante para o sucesso ou insucesso da nossa empreitada: “Seje bem-vindo” foi inaceitável! Apesar de toda beleza e magnitude do museu, nunca vou me esquecer deste “pequeno detalhe”.


segunda-feira, 1 de junho de 2009

O Pequeno Príncipe e Victor Frankl


Semanalmente o Glauson, líder da Cadsoft, faz um trabalho que ele chama de Acolhida. É um bate papo com os colaboradores onde ele discorre sobre diversos temas e trabalha a ampliação da competência da equipe através de dinâmicas, reflexões e pensamentos. Semana passada, em uma destas acolhidas, ele passou um trecho do filme O Pequeno Príncipe, baseado na obra de Antoine de Saint-Exupéry. O trecho passado mostra a conversa entre o pequeno príncipe e a raposa, onde no início a raposa tem medo do príncipe, pois, assim como todos os seres humanos, ele deve ter uma arma e esta ali para caçá-la. E o príncipe tenta mostrar a raposa que ele é diferente, que vive em um mundo diferente, sem armas, sem violência. E a raposa se convence que aquele menino é diferente a ponto de pedir que ele a cative.

Nesta mesma semana eu estava lendo um livro sobre liderança e os autores citaram, como exemplo de líder, o médico psiquiatra austríaco Victor Frankl. Frankl esteve preso em Auschwitz, um dos campos de concentração símbolos do holocausto e onde morreram mais de hum milhão de judeus. Porém ele desenvolveu uma capacidade de projetar seus sonhos de futuro, no presente. Ele criava mentalmente o ambiente desejado, desprezando a situação atual, de forma que em sua visão a guerra já havia terminado, as pessoas não estavam mais correndo perigo de vida e os campos de concentração não existiam mais. Ele criou, para a sua salvação e de outras pessoas ao seu redor, um mundo diferente daquele que ele vivia, e isso o manteve vivo para ser liberto após o final da guerra.

Estas duas passagens me fizeram concluir que temos a capacidade de projetar e de viver em um mundo diferente. Isso não significa alienação e sim uma escolha. Eu posso escolher viver e construir algo diferente do que temos hoje e, por ser uma escolha pessoal, eu posso construir aquilo que acredito ser o melhor para todos nós.

Faça também a sua escolha.

sábado, 23 de maio de 2009

Liderança :: Cargo ou Postura?

Em nossa vida lidamos diariamente com o aspecto da liderança. Certas vezes desempenhamos o papel de líder e outras vezes de liderados, depende do ambiente e do momento em que estamos. Podemos ser liderados em nossa empresa, mas lideres em nossa família. Ou líder em nossa comunidade, mas liderado no time de futebol, ou até mesmo no grupo de trabalho da escola, da faculdade ou da pós. 

Mas, afinal, a liderança é um cargo ou uma é postura?

Em minha experiência pessoal posso afirmar que liderança é postura, advinda do comportamento das pessoas. De nada adianta eu ter um cargo senão tiver a postura de um líder. Uma pessoa somente será um líder se for respeitada como tal. Mas já nascemos com esta habilidade de sermos respeitados como líderes? Acredito que algumas pessoas nascem com esta habilidade mais aflorada, outras nem tanto. Mas qualquer pessoa pode desenvolvê-la e se tornar um líder muito reconhecido.

Gostaria de relatar duas experiências que ajudaram a moldaram o pensamento que aqui expresso.

Quando fiz meu primeiro estágio, ha muitos anos atrás, trabalhava dentro do “CPD” de uma grande empresa. Num certo dia houve uma queda de energia. Como nem sempre estamos preparados para estas situações, o no-break não segurou a carga dos equipamentos ligados a ele e o “computador central”, que era um grande mainframe, desligou. Não preciso nem dizer a pressão que foi em cima do diretor de TI que, 3 minutos depois da queda de energia entrou em nossa sala desesperado sem saber exatamente o que fazer.  Ao vê-lo desta forma, um dos programadores se levantou, pegou o celular, ligou para alguém da elétrica, separou o multímetro e a chave de fenda e quando o eletricista chegou, o acompanhou até o banco de baterias do no-break para avaliar o que estava acontecendo. Mais 10 minutos e o mainframe estava ligando. Quem foi o líder nesta situação? O que tinha o cargo ou o que teve a postura?

Certa vez, no inicio da minha carreira, fui convidado pelo meu líder a assumir a posição de liderança intermediaria de uma equipe, da qual eu fazia parte naquele momento. Além de expressar minha alegria por aquele convite, falei para ele: “E como você vai fazer para avisar a todos? Vai enviar um email para eles?” E ele me respondeu: “Não, você terá que conquistar o respeito de todos eles, para daí sim se tornar um verdadeiro líder. Liderança é conquistada, não imposta.” 

Nunca vou esquecer essa lição.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Só funcionamos no chicote?


Semana passada eu estava em BH, a bela capital mineira, no hotel que costumo me hospedar. Era por volta de 19h e resolvi ir até a farmácia a pé, para apreciar a noite. A certa altura da minha caminhada me vi no cruzamento entre a Av. Amazonas (para quem não conhece, umas das principais avenidas de BH, que liga o centro da cidade até a saída para a Fernão Dias, rodovia que liga a cidade à capital paulista) e a R. Aimorés. Era um horário de transito pesado, como de costume nas grandes capitais, e o movimento era 
intenso. Porém, o que me chamou a atenção foi o fato das pessoas não respeitarem o cruzamento. Ao fechar o semáforo de quem estava na R. Aimorés, vários carros ficaram parados em cima da faixa de pedestres e tantos outros ficaram no meio da Av. Amazonas, travando o transito de quem, por direito (já que o semáforo havia ficado verde) deveria transitar por esta avenida sem grandes dificuldades. Claro, sem falar na orquestra ensurdecedora (e desafinada) promovida pelas mãos aflitas de diversos motoristas ao apertarem as buzinas de seus carros.

Estou acostumado a ver este tipo de situação, principalmente em São Paulo, mas naquele dia aquilo me incomodou muito: peguei o celular e registrei a cena através de uma foto. Continuei a minha caminhada até a farmácia

Quando estava retornando, 15 minutos depois, decidi seguir o mesmo caminho para verificar como estava o “caos” naquele mesmo cruzamento. Quase não acreditei quando constatei que não havia mais o “caos”. Os pedestres haviam readquirido seu direito de atravessar na faixa, as buzinas haviam cessado e não existia mais nenhum carro travando o cruzamento. Parei para avaliar a cena e então ouvi, um pouco abafado pelo som dos motores dos carros, um apito, como o de um juiz de futebol. Sim, era ele: o temido guarda de transito (temido pelas multas que aplica, claro). Em São Paulo chamamos ele de “marronzinho” por causa do uniforme da SPTrans. Em BH não sei como são denominados, mas tive certeza que são, da mesma forma, respeitados e temidos. Novamente peguei o celular e registrei a cena, porém, desta vez, mais incomodado ainda.

Continuei minha caminhada de volta ao hotel tentando aplicar aquele exemplo ao dia a dia de nossas empresas. Será que, da mesma forma que no trânsito somente funcionamos adequadamente com a presença de um guarda, em nossas empresas somente funcionamos com a presença dos “supervisores” (ou seriam os capatazes)? Logo me lembrei de quantas empresas mantém pessoas em seu quadro que tem como objetivo garantir que outras pessoas estejam trabalhando (alguma semelhança com o algoz de Chaplin em “Tempos Modernos” é somente coincidência...).

É assim mesmo que tem que ser? Precisamos de alguém supervisionando o que estamos fazendo para fazermos certo? Será que, como líderes, ao encorajar esta figura (do guarda, supervisor ou capataz) estamos agindo da maneira correta?

Pessoalmente, como líder, prefiro investir na expansão da consciência do que na supervisão das pessoas.



sábado, 2 de maio de 2009

Cuida de mim, não da minha vida

Hoje em dia muito tem se falado sobre o papel e as responsabilidades de um líder. James Hunter iniciou este novo ciclo de papeis de liderança com o livro “O monge e o executivo”. Já falei neste blog sobre o livro do Pe. Zezinho que escreveu um livro chamado “O Líder Amoroso” e conheço de perto a obra do Roberto Tranjan que acredita no papel do Líder como educador de pessoas. Todas estas características, e outras que são estudadas e seguem a linha humanista, têm seus valores e ideais relacionados à celebração do ser humano. É o oposto da linha industrial, onde o homem é visto e tratado como meio para algum fim. Com esta nova visão as preocupações, o olhar e os cuidados do líder passam a ser mais focados nas pessoas do que nas “coisas”. E como poderia ser diferente?


O termo cuidar nos remete a várias imagens e uma delas, que sempre transita em minha mente, é a imagem do interesse. Quando cuidamos de alguém é porque temos um real interesse naquela pessoa. Nos importamos com o que acontece com ela, nos importamos com seu bem estar, com sua felicidade, com sua tristeza e sempre que podemos estendemos a mão para ajudá-la. Se eu pudesse “juntaria” as intenções por trás das obras que citei acima e falaria do “Líder Cuidador”, pois ele serve, ama e educa.

Mas existe uma linha muito tênue, que esta ligada ao titulo deste post, que separa o “cuidar da pessoa” com o “cuidar da vida da pessoa”. E creio que muitas vezes caímos nesta armadilha. Como já disse antes, cuidar de pessoas é despertar por elas um interesse real, com uma boa intenção, com altruísmo e pensando apenas no bem estar e na evolução delas. Cuidar da vida das pessoas é diferente: é se interessar pelo que ela faz ou deixa de fazer; é se interessar pelo que ela tem, compra ou conquista; é querer saber onde ela está, para onde vai ou deixa de ir; e pior, compartilhar estas informações com outras pessoas. Com qual intenção? Não posso julgar, mas não acredito que seja o interesse pelo bem estar e pela evolução delas.

A minha reflexão tem sido esta: O quanto estou “cuidando das pessoas” e o quanto estou “cuidando da vida das pessoas”?


E não se esqueça, não vale apenas para líderes, vale para todos nós.


terça-feira, 21 de abril de 2009

A Casa do Grito!


Essa semana fui a um compromisso na região do Ipiranga (zona sul de sampa), muito próximo do monumento da independência e do museu do Ipiranga. Minha reunião terminou perto do horário do almoço e, invés de ir embora, decidi caminhar pelos arredores do monumento, já que fazia muito tempo que eu não andava por ali. Eu estava subindo a rua que liga o monumento ao museu, contemplando aquela bela imagem da nossa história quando virei pra esquerda e vi, bem escondida entre as árvores, a casa do grito. Continuei andando, mas, logo, parei e voltei. Fazia muito tempo que não entrava naquela casa.

A Casa do Grito, para quem  não conhece, é um patrimônio histórico, pois foi ali que, em 1822, Dom Pedro gritou, às margens do rio Ipiranga: "Independência ou Morte!". Ainda não se sabe se a casa que existe hoje, estava realmente ali em 1822, pois existem registros que dizem que a casa foi construída apenas em 1844, porém, ela ficou conhecida pois protagoniza uma das maiores obras que retratam este fato histórico: a tela “Independência ou Morte”, pintada por Pedro Américo em 1888.

Como eu estava ali, visitei a casa, que hoje é uma espécie de museu da independência e dos hábitos da época e também mostra como viviam as famílias no século 19. Algumas paredes estão descobertas (sem o conhecido “reboco”) para que possamos ver a forma que a casa foi originalmente construída: “pau a pique”, ou seja, construção com madeiras (geralmente bambu) entrelaçado com cipó e preenchida com barro.

Ademais a nostalgia que foi visitar esta casa (que devia fazer uns 15 anos que eu tinha ido pela última vez), o que me chamou a atenção foi a movimentação em torno do museu. Quando eu estava indo em direção ao portão, para sair do parque, pude observar uma série de crianças, orientadas pelos seus professores educadores, em direção à entrada do museu. Muitas, provavelmente, pela primeira vez ali, estavam eufóricas por estarem muito próximas de chegar um pouco mais perto da nossa história, respirar os ares daquela época, ver como viveram nossa monarquia, de onde viemos, como nos  tornamos independentes e qual a importância deste fato para a proclamação da atual republica que vivemos.

Educadores liderando crianças, em busca de cidadania para estes que serão os futuros líderes de nossa nação.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Educação é Saúde Pública?

Hoje eu recebi um email da Raissa, colaboradora da Cadsoft, com o link de uma reportagem veiculada pela revista Veja, a respeito da mudança proposta pelo ministério da educação para o vestibular, mudança que está sendo chamada de “Vestibular Unificado”. A reportagem é interessante e aborda diversos pontos de vista e claro, como tudo que permeia educação, é um assunto que ainda vai render longas discussões.

Após ler a reportagem, comentei sobre ela com a Ana, minha esposa. Ela é advogada e fonoaudióloga (apesar de exercer apenas fonoaudiologia atualmente) e estas duas experiências permitiram a ela contatos muito próximos com legislações, direitos humanos (incluindo educação), deveres e obrigações (todos no contexto do Direito) e também com o tema de saúde pública (no contexto de Fonoaudiologia). Durante a nossa conversa, em que eu explicava a ela a minha opinião sobre esta unificação de vestibulares (opinião que deixarei para expressar em outro “post”), o contexto ampliou e ela fez a seguinte afirmação: “Na minha visão, educação é saúde pública!”.

Fui pego de surpresa. Não esperava uma afirmação como essa pois eu nunca tinha enxergado a educação desta forma. Por este motivo aprofundei no papo para entender como ela tinha chegado nesta conclusão. Após varias idas e vindas, ela chegou à seguinte definição: “Tudo aquilo que é voltado para o bem estar e a evolução do ser humano, é saúde publica”. Pensei comigo: “Educação é voltada para o bem estar do ser humano? Claro!” Então é saúde pública? Neste contexto, eu diria que sim.

Após esta reflexão me lembrei que, no texto da Reforma do Estado de 1995 educação e saúde são classificadas na mesma seara, como “Serviços Não-Exclusivos”.

Concluindo, esta visão fez muito sentido para mim, principalmente se eu citar a ideologia da Cadsoft, que ajudei a construir e luto diariamente para perenizar: “Participar do aprimoramento educacional visando o progresso humano, em conjunto com Instituições éticas e atentas ao bem-estar social, contribuindo para formação de uma comunidade próspera e humana que compartilha, ensina, aprende e se doa”

domingo, 5 de abril de 2009

O Líder Amoroso

Recentemente eu li um livro chamado “As Sete Virtudes do Líder Amoroso”. É um livro sobre liderança, na mesma linha do livro “O Monge e o Executivo”, porém, invés de tratar do líder servidor, trata do líder amoroso. O principio básico do livro é o “Hino ao Amor” de Paulo de Tarso, que a na bíblia (pelo menos na que eu tenho aqui em casa) é encontrado na Primeira Carta aos Coríntos, no capitulo 13. Os leitores, principalmente da geração que cresceu nos anos 80 e 90, devem conhecer parte deste texto através da musica “Monte Castelo”, da Legião Urbana. Mas porque eu estou falando tanto deste livro? Porque ele foi escrito por um padre (Pe. Joãozinho, SCJ).

Estamos acostumados a ler livros de lideranças escritos por “gurus” badalados, na moda, que dizem nos trazer as soluções para sermos grandes lideres. E estamos acostumados a ler livros de auto-ajuda, espiritualidade, família, religiosidade, escrito por padres. Mas, confesso que, ao receber um livro que fala de liderança, escrito por um padre, tive certa desconfiança. A primeira coisa que pensei foi: O que um padre pode entender de liderança? Mas, antes que meu “pré-conceito” sobre os conhecimentos de liderança de um padre pudessem minar meu interesse naquela leitura, pensei: Ele é um líder, como outro qualquer. Ele lidera pessoas, a diferença é que a ideologia dele provavelmente é a Fé.

Basicamente o livro fala das 7 virtudes que um líder amoroso deve ter, embasadas no hino ao amor, que já citei acima. São estas as virtudes:

  • O líder comunicativo;
  • O líder confiante;
  • O líder solidário;
  • O líder paciente;
  • O líder discreto;
  • O líder honesto;
  • O líder resiliente;

O tema é atual, a leitura é fácil (apesar de não aprofundar nos conceitos que levaram o autor a defini-los) e a adaptação de um texto escrito há tantos séculos aos dias de hoje, se torna muito curiosa.

E, antes que pensem que é um sobre religião ou sobre a igreja, esclareço: É um livro sobre atitudes, embasadas no amor ao próximo e a si mesmo, que podem ajudar a um líder a liderar. 


domingo, 29 de março de 2009

Líderes que andam de “muleta”

No último post que escrevi falei sobre como deveriam ser os programas assistenciais do governo, em minha concepção. Basicamente acredito em um ciclo virtuoso que inicia no atendimento das necessidades básicas do indivíduo, passa pela educação e profissionalização dele para que, em seguida, o mesmo possa exercer sua cidadania e lutar, inicialmente, pela sua sobrevivência (e de sua família) e posteriormente pelo seu crescimento e emancipação.

Na semana passada, logo após ter escrito este post, a Katy, uma amiga e colaboradora da Cadsoft, me procurou para comentar sobre o texto. Durante o papo ela lembrou de uma palestra do Roberto Tranjan, consultor, educador e autor que criou o modelo de gestão que escolhemos para nossa empresa.  Nesta palestra o Roberto falou sobre sua experiência como consultor de empresas por mais de 10 anos e da sua frustração nesta atividade. Sempre que ele desenvolvia um trabalho de consultoria, as coisas na empresa-cliente se encaixavam e tomavam um rumo adequado. Porém, depois de algum tempo (meses ou anos, dependendo do caso) os líderes costumavam chamá-lo de volta para ajudá-los a colocar suas empresas novamente no lugar e, quando ele chegava, percebia que os problemas eram, em sua maioria, os mesmos que ele havia ajudado a corrigir em sua primeira passagem. Depois de muito se frustrar ele decidiu abandonar o trabalho de consultor e criou uma empresa de educação para negócios. Hoje sua principal atividade é educar lideres para liderarem suas empresas, sem que precisem de uma “consultoria” para colocar a empresa no rumo, de tempos em tempos.

A Katy lembrou desta história porque ela fez um link muito interessante entre essa experiência do Roberto e o último post que escrevi. Em sua percepção, no âmago da questão, os problemas relatados são os mesmo, pois em ambos os casos alguém de fora (seja um consultor ou seja o governo) ajuda, mas não ensina, criando um ciclo de dependência contínua.

Como este post de hoje é voltado para o tema liderança, baseado nesta conexão que foi relatada acima eu reflito: Quantas vezes, enquanto líderes, nos apoiamos em muletas, desculpas ou “consultores” para exercerem a nossa função, terceirizando nossa responsabilidade assumida perante outras pessoas e convencendo-nos de que é o melhor caminho?

Consultores devem ser contratados para nos ensinar algo que não sabemos. Assim que terminam seu trabalho de educação devem ser avaliados pela falta que não vão fazer em nossa empresa. 


Mas, se você prefere andar de muleta...


segunda-feira, 23 de março de 2009

Fome-zero, cárie-zero, furo na roupa-zero...

Semana passada tive um papo muito interessante com um amigo e colaborador da Cadsoft, o Bernardo. Apenas para contextualizar, o Bernardo é afro-descendente e eu sou ítalo-descendente (existe isso?). Começamos a conversar, nem sei o porquê, sobre o regime de cotas e um provável protecionismo para classes (ou raças) menos favorecidas. Ao longo da conversa nosso papo acabou se desviando das cotas para o programa fome zero. O Bernardo é a favor do fome-zero (e vou me limitar a dizer isso, deixando o espaço deste blog para ele manifestar os seus motivos) e eu sou totalmente contra, no modelo que ele é apresentado atualmente. Tem uma velha história, que acho que aprendi com meu pai, que diz assim: 

“Temos que ensinar as pessoas a pescarem o seu próprio peixe, para que dependam única e exclusivamente de seu esforço para se alimentar, sobreviver, prosperar. Se damos o peixe, o dia que a nossa fonte secar, prejudicaremos também as pessoas que dependiam deste peixe e isso é irresponsabilidade da nossa parte.”

Apesar de ser uma história antiga e conhecida por muitos, ela é bem atual no contexto desta discussão. Em minha opinião, o fome-zero (e todos os programas assistencialistas) dão o peixe, mas não ensinam a pescar.  Ao entregar o peixe às famílias mais necessitadas, não expandimos suas possibilidades, limitando-as àquele peixe. Não criamos oportunidades, criamos dependência. Não criamos um “pais do futuro”, criamos um povo sem identidade, sem significado e facilmente manipulado. 

Até posso acreditar que a intenção do programa fome-zero foi boa, mas o formato, não foi. Em minha concepção o formato de um programa como este deve ser o da re-socialização. Numa primeira fase é valido dar comida, já que estão passando fome. Mas, num período determinado de tempo, temos que ensinar uma profissão, criar oportunidades de emprego e possibilitar às famílias que sejam responsáveis pelo seu próprio sustento. É um ciclo virtuoso de geração de pessoas mais conscientes, oportunidades de trabalho e conseqüente geração de riquezas para o país.

No dia seguinte a esta discussão, assistindo o Jornal “Bom dia Brasil” da rede Globo, logo lembrei do Bernardo ao ouvir a seguinte notícia: “Governo libera 40 milhões de reais para compra de escovas de dentes para a camada mais pobre da população”. Em minha visão, é o Cárie-zero. E depois disso? Virá o furo na roupa-zero, o sem teto-zero, o sem entretenimento-zero?

Temos que repensar este modelo de gestão de nosso país, para criamos uma nação mais consciente, menos manipulada e que luta e se orgulha ao alcançar seu sustento e sua prosperidade através de seu próprio esforço.


terça-feira, 10 de março de 2009

Dia internacional da mulher: Comemorar ou se envergonhar?

Dia 08 de março de 2009, como acontece em todos os anos (ou quase todos) há mais de 100 anos, foi comemorado o dia internacional da mulher. Bom, se alguma mulher esperou os meus parabéns, se frustrou. Este dia poderia ser chamado de dia internacional das conquistas econômicas, políticas e sociais das mulheres, ou o dia em comemoração às trabalhadoras queimadas no incêndio na fábrica de Triangle Shirtwaist, mas não poderia ser o dia internacional da mulher. 

A primeira coisa que vem em minha cabeça quando falam em “dia da mulher” é: “que ótimo, todos os outros dias são dos homens”. Mas brincadeiras a parte, isso não tem nada de ótimo. Isso é vergonhoso. Eu vejo pessoas entregando rosas às mulheres neste dia. Só neste dia? Só assim para elas merecerem uma rosa? Só assim para elas merecerem nossa atenção, nosso carinho, nosso agradecimento por existirem em nossa vida? Não. Todos os dias deveriam ser o “dia da mulher”. Assim como todos os dias deveriam ser o dia do homem, do ser humano. 

Uma coisa é ter o dia do profissional (dia do analista de sistemas, dia do médico, dia do funcionário público) pois estamos homenageando uma classe, pequena dentre tantas outras (apesar de que eu não vejo o menor sentido nestas datas) mas outra coisa é o dia da mulher, dia do índio, da consciência negra. Parece que são alas excluídas, que são lembrados apenas neste dia. E para falar a verdade, é o que acontece: Só lembramos do índio no dia do índio, só lembramos que existe a consciência negra, que luta pelos direitos de igualdade, no próprio dia e só lembramos do quanto as mulheres podem ser especiais em nossa vida, no dia da mulher. Não comemoro nenhum destes dias!

Acho uma vergonha existir um dia para que pessoas sejam lembradas. Isso serve apenas para confortar a nossa consciência, amenizando os atos equivocados que tomamos em nosso dia a dia quando maltratamos ou negligenciamos nossa mãe, esposa, amiga ou irmã (ou um índio, ou um negro). No dia comemorativo entregamos uma rosa, vestimos uma roupa de índio ou lembramos que a feijoada foi inventada pelos negros, e fica por isso mesmo. 

E que venha mais um ano de consciência limpa e alma tranqüila.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Acreditar: depende da intenção?

Duas semanas atrás escrevi neste blog sobre “o difícil exercício de acreditar”. Foi um ensaio sobre honestidade, verdade, crença e perdão. Como os leitores deste blog são na maioria amigos (só os amigos mesmo para terem tanta paciência...), conheço os “proprietários” dos comentários que foram deixados naquele post e agradeço muito a todos. Fizeram-me refletir sobre o ensaio inicial e buscar novas conclusões acerca de um tema tão controverso.

A primeira reflexão foi entre verdade, seja pura e simples ou inocente, e a intenção. O que temos de mais profundo em um gesto, uma palavra, um simples olhar ou até mesmo num beijo é a nossa intenção. Sim, acredito que certas vezes decidimos proferir inverdades com uma boa intenção detrás dela. Essa intenção pode ser proteção, como no caso do filme Benjamim Button, auto-preservação, inocência, medo, amor ou tantas outras que possam existir. O fato é que esta reflexão me levou a rever meu primeiro ensaio: quando descobrimos uma inverdade devemos, antes de mais nada, saber qual era a intenção por detrás dela. Pode ser que, sabendo a real intenção, não seja necessário nem “pregar um prego” tão pouco perdoar.

Claro, surge uma nova dúvida: como saber a qual era a real intenção? Acredito que não tem regra, não tem lei, não tem fórmula nem mágica. Se você descobre, você simplesmente sente. Utilizar a maiêutica para fazer as perguntas certas pode ajudar a chegar nesta camada mais profunda, da intenção, mas ainda assim só teremos certeza que chegamos quando sentirmos. É muito abstrato, eu sei, e se alguém tiver uma idéia diferente, por favor, compartilhe.

Outra reflexão foi a relação entre verdades e inverdades e a honestidade. Não acredito que uma pessoa possa ser determinada como honesta ou desonesta pela quantidade de verdades ou inverdades que ela profere. Tão pouco pelo tamanho da verdade (ou inverdade) dita. Uma pequena inverdade para uma pessoa pode significar o mundo para outra. Fazendo uma relação com a primeira reflexão poderia inferir que a honestidade (se é que nos cabe este julgamento) também é pautada pela intenção. 

Por fim percebi que nossas crenças são pautadas pela nossa história de vida. Muito do que somos hoje foi escrito nas diversas páginas de nossa vida. Assim como um diário que não se apaga com o tempo, nossas experiências, ilusões e desilusões ajudam a formar a visão que temos do mundo e das pessoas. Respeitar esta visão é respeitar nossa própria história. Refletir sobre nossa história e mudar nossa visão do mundo é melhorar, porém cada um no seu tempo, no seu espaço, no seu ritmo. 

Sem pressa, pois a vida é para ser apreciada e não engolida. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A responsabilidade de um líder

Tem um texto de um autor que admiro muito, Roberto Tranjan, que fala sobre a escolha de ser um líder. Durante o texto ele faz uma brincadeira que nos remete à nossa infância, resgatando em nossas memórias o que gostaríamos de ser quando crianças. Engenheiro, médico, dentista, bombeiro, advogado, e outras profissões não tão tradicionais quanto as citadas são, geralmente, as lembranças que vêem em nossa memória. Mas, por mais que perguntemos a muitas pessoas, ninguém se lembra de ter pensado quando era criança: Eu quero ser um líder! 

Alguns podem até imaginar: Mas líder não é uma profissão! Se não é? O que é? Uma função, um cargo, uma aptidão ou até mesmo um dom? Não, ser líder em minha opinião é uma escolha. Podemos ser líderes de uma empresa, de uma equipe, de uma família, do clube do futebol no final de semana, da comunidade em que vivemos, não importa. O que importa é que a liderança exige responsabilidade. 

E se você escolheu ser um líder, escolheu ter muita responsabilidade.
A responsabilidade é a obrigação de respondermos pelos nossos próprios atos e ela é fortemente baseada no livre-arbítrio. Se liderança é uma escolha e o livre-arbítrio é a possibilidade que temos de fazer nossas próprias escolhas fica fácil de entendermos porque a liderança nos traz responsabilidade.

Mas que tipo de responsabilidades a liderança pode nos trazer? São inúmeras. Poderia ficar dias e dias citando-as, mas compartilho algumas principais, em minha visão:
  • Estabelecer junto de seus liderados uma visão clara de futuro. Onde todos juntos (seja uma empresa, uma família ou uma comunidade) querem e pretendem chegar. E o que farão para atingir este futuro desejado. 
  • Enxergar as competências existentes em sua equipe e, principalmente, ter claro em sua mente quais as suas próprias limitações. Somente diante de suas limitações poderá escolher pessoas melhores do que ele para desenvolver atividades necessárias para a busca do futuro desejado.
  • Cuidar para que suas limitações pessoais não coloquem em risco o objetivo compartilhado com seus pares. O líder tem esta obrigação!
  • Estar atento para que sua equipe esteja unida e com foco no futuro desejado. Somente com foco e união dos envolvidos, através de ações consistentes, é que este futuro será alcançado.
Estas são minhas percepções iniciais sobre as responsabilidades de um líder. 
Alguém aumenta a lista?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O difícil exercício de acreditar

Dentre tantas coisas que aprendi ao longo da minha vida uma delas foi a crença indubitável nas pessoas. Acredito que todo ser humano merece ser visto como honesto e verdadeiro, até que prove o contrário. Alguns amigos já me falaram que esta crença é uma espécie de ingenuidade da minha parte, que eu deveria avaliar melhor as pessoas antes de acreditar nelas. Eu até entendo este ponto de vista, pois esse cuidado, esta avaliação preliminar, poderia me proteger de possíveis desilusões. Mas eu também correria o risco de, não conhecendo profundamente uma pessoa, pré julgá-la erroneamente e ficar com a consciência tranqüila pela égide de meus preconceitos, crenças e valores. Entre correr o risco de uma desilusão e correr o risco de um julgamento errado, escolho a desilusão, até porque tenho certeza que as pessoas praticam muito mais verdades do que não verdades.

Além disso, é importante afirmar que todos nós (todos mesmo, sem exceção) já cometemos atos de inverdade. Seja com nossos pais, amigos, familiares ou cônjuges, as vezes não falamos a verdade (ou não falamos alguma parte dela). Quando decidimos por inverdades, e não importa o tamanho dela, corremos o risco de sermos julgados se alguém nos descobrir e acredito que este julgamento será balizado pelo sentimento que despertamos na pessoa que nos descobre.

Certas inverdades passam despercebidas, sem nenhum sentimento ruim despertado ou nenhuma conseqüência desastrosa. São tão pequenas que as vezes até fazem bem para os relacionamentos. Outras são tão serias que podem abalar profundamente uma relação de confiança, seja ela de um dia, um mês ou anos. E em minha percepção, o estrago conseqüente de uma inverdade está nos olhos de quem descobre e não de quem a comete, pois somente o descobridor pode avaliar o tamanho da ferida que os sentimentos despertados pela descoberta causaram em seu mais profundo íntimo.

Mas para todo erro existe o perdão. Não vou abordar o tema perdão neste post, pois é mais uma extensa reflexão, mas me lembro de uma história que um amigo meu me ensinou:

"Sentimentos ruins que despertamos nas pessoas são como pregos pregados em uma árvore. Podemos até tirá-los de seu tronco, mas o furo permanecerá lá por muito tempo, até que esta árvore amadureça este sentimento a ponto de não sobrarem mais as marcas daquele prego."

E quando isso acontece? Só o tempo para responder!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O limiar entre a Humildade e Hipocrisia

Essa semana estava conversando com alguns amigos da Cadsoft, Alysson, Alexandre e Miron. Numa conversa paralela com o Alysson fiz uma brincadeira dizendo que ele era realmente um cara humilde. O Miron ouviu a brincadeira e disse: O Alysson humilde? Não ele é hipócrita. E todos começaram a rir da piada.  Mas logo após os risos, começamos a discutir a diferença entre humildade e hipocrisia, porém, sem chegar num consenso.

Depois deste bate papo fiquei pensando muito sobre esta diferença. Já escrevi sobre hipocrisia neste blog, em outubro do ano passado. Naquele post defini a hipocrisia como um desalinhamento entre aquilo que pensamos e sentimos daquilo que fazemos e mostramos ao mundo. Na wikipedia hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. Evoluindo um pouco mais, é como se NÃO vivêssemos o que realmente somos.  Pesquisando sobre humildade descobri que é a qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre outras pessoas nem se mostrar superior a elas. Aquele que se vangloria da sua humildade, mostra simplesmente que não a tem. A humildade no senso comum é entendida como uma virtude e, logo, se hipocrisia é o ato de fingir ter uma determinada virtude que não se tem podemos inferir que, aquele que tenta se mostrar humilde pode acabar sendo interpretado como hipócrita.

Apenas para não deixar dúvidas, o Alysson não foi nem humilde nem hipócrita, porque nós o “rotulamos” naquele momento, pela brincadeira.

Mas e se fosse verdade? Como discernir entre um ato de humildade ou de hipocrisia?  Não tenho essa resposta, mas gostaria de compartilhar o que penso sobre isso. Talvez seja difícil entender se uma pessoa esta sendo hipócrita ou humilde (em outras palavras, se ela esta sendo real ou se esta se mostrando diferente do que é) num primeiro contato porque não a conhecemos. Se tentarmos discernir à primeira impressão corremos o risco de sermos preconceituosos (ver o post do dia 12/01/2009) e até injustos. Mas se a convivência se torna mais freqüente podemos facilmente observar alguns pontos discrepantes entre o discurso e a atitude. Somos aquilo que fazemos e não aquilo que falamos. Claro que nossas atitudes nem sempre refletem nossa intenção (e isso é assunto pra outro post) e também não podemos julgar alguém um hipócrita apenas por uma atitude isolada, por isso a importância da freqüência e da convivência.

Por fim, antes de concluir que uma pessoa é hipócrita, livre-se de seus preconceitos, conheça de verdade esta pessoa, atente-se às suas atitudes e não deixe de enxergar que por detrás delas pode ter uma intenção mal interpretada.

Alguma outra idéia?

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ensaio sobre o Preconceito e a Tolerância

Inicio a temporada de 2009 com um texto sobre Preconceito e Tolerância. Por ser um assunto extenso e complexo, chamei o post de “ensaio”. Acredito que, como seres humanos somos suscetíveis a erros, e por isso todos nós temos alguns preconceitos. Os preconceitos, em minha visão, podem ter várias origens e destaco aqui as que acredito terem maior relevância:
  • Nossa educação, formal e informal (na escola, em casa, na igreja)
  • Enraizadas em nossa sociedade e em nossa cultura (pátria, comunidade, “tribos”)
  • Experiências que vivemos ao longo da nossa vida
  • E também, por medo!
Nestas férias passei por algumas situações em que fui confrontado com alguns preconceitos que possuo e decidi me aprofundar na raiz destes preconceitos. Como acredito que vivemos para contribuir e evoluir, não aceitei as duas primeiras origens, educação e cultura, como causa de meus preconceitos, e busquei classificá-los nas duas últimas origens: Experiências e Medo. O interessante foi que, quanto mais me aprofundava em minhas reflexões, mais eu percebia que quase não havia vivenciado experiências relacionadas aos meus preconceitos, logo, sobrava-me apenas o medo.  

Diante disto percebi que podemos exercer, inconscientemente, um ciclo muito perigoso: Em geral, temos medo daquilo que não conhecemos. Se não conhecemos, pressupomos. Pressuposições erradas nos levam a uma realidade distorcida e por fim, a realidade distorcida nos desperta o preconceito. Conclui que meus preconceitos, em sua maioria, tinham raiz no medo e decidi confrontá-los através da tolerância.

Encaro a tolerância como a capacidade do ser humano de entender, respeitar e conviver com escolhas, atitudes e formas de expressão diversas que existem em nosso mundo. Não me obrigo a participar ou gostar de toda esta diversidade, mas não devo hostilizar, denegrir ou tão pouco satirizar qualquer escolha, atitude ou forma de expressão. 

Inicio o ano de 2009 mais tolerante, pois é através da tolerância que podemos nos dar a chance de entender e respeitar a todos em nossa volta, enfrentando e vencendo nossos medos e preconceitos.