segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O difícil exercício de acreditar

Dentre tantas coisas que aprendi ao longo da minha vida uma delas foi a crença indubitável nas pessoas. Acredito que todo ser humano merece ser visto como honesto e verdadeiro, até que prove o contrário. Alguns amigos já me falaram que esta crença é uma espécie de ingenuidade da minha parte, que eu deveria avaliar melhor as pessoas antes de acreditar nelas. Eu até entendo este ponto de vista, pois esse cuidado, esta avaliação preliminar, poderia me proteger de possíveis desilusões. Mas eu também correria o risco de, não conhecendo profundamente uma pessoa, pré julgá-la erroneamente e ficar com a consciência tranqüila pela égide de meus preconceitos, crenças e valores. Entre correr o risco de uma desilusão e correr o risco de um julgamento errado, escolho a desilusão, até porque tenho certeza que as pessoas praticam muito mais verdades do que não verdades.

Além disso, é importante afirmar que todos nós (todos mesmo, sem exceção) já cometemos atos de inverdade. Seja com nossos pais, amigos, familiares ou cônjuges, as vezes não falamos a verdade (ou não falamos alguma parte dela). Quando decidimos por inverdades, e não importa o tamanho dela, corremos o risco de sermos julgados se alguém nos descobrir e acredito que este julgamento será balizado pelo sentimento que despertamos na pessoa que nos descobre.

Certas inverdades passam despercebidas, sem nenhum sentimento ruim despertado ou nenhuma conseqüência desastrosa. São tão pequenas que as vezes até fazem bem para os relacionamentos. Outras são tão serias que podem abalar profundamente uma relação de confiança, seja ela de um dia, um mês ou anos. E em minha percepção, o estrago conseqüente de uma inverdade está nos olhos de quem descobre e não de quem a comete, pois somente o descobridor pode avaliar o tamanho da ferida que os sentimentos despertados pela descoberta causaram em seu mais profundo íntimo.

Mas para todo erro existe o perdão. Não vou abordar o tema perdão neste post, pois é mais uma extensa reflexão, mas me lembro de uma história que um amigo meu me ensinou:

"Sentimentos ruins que despertamos nas pessoas são como pregos pregados em uma árvore. Podemos até tirá-los de seu tronco, mas o furo permanecerá lá por muito tempo, até que esta árvore amadureça este sentimento a ponto de não sobrarem mais as marcas daquele prego."

E quando isso acontece? Só o tempo para responder!

5 comentários:

Rodrigo disse...

Daniel, qual o limiar entre dizer a verdade pura e simples e ser dizer a verdade inocentemente?
Lembro que você há anos atrás colocou esta questão. Será que o que te incomodou ao ponto de fazer este desabafo ou reflexão não está ligado a isto?
Abraços

Anônimo disse...

Dan, eu gosto muito de discutir com você a respeito desse assunto, pois você me faz perceber o quanto vivemos de escolhas. Você acredita nas pessoas até que se prove o contrario eu só confio se provar o contrário. Na verdade sei que sua forma de pensar é mais valida, porém como a minha arvore tem varias marcas de prego tenho um longo caminho pelo frente.

Fabiana disse...

Daniel,
Concordo com você que todos nós já cometemos atos de inverdade. Da mesma forma, acredito que todos nós já “sofremos” com atos de inverdade de outras pessoas e pudemos constatar as marcas deixadas por esses atos.
Mas sendo um pouco otimista, acredito que a mentira pode ser dita com intenções diferentes, mesmo mentiras muito sérias. Só para dar um exemplo, no filme do Benjamin Button, a mãe mentiu sobre o verdadeiro pai para proteger a filha do sofrimento. Apesar de dar um exemplo da ficção, muitos parecidos acontecem na vida real. Dessa forma, acredito que as marcas dos pregos podem ser apagadas ou amenizadas se soubermos que a intenção da inverdade foi boa... Pode até não justificar o ato de mentira, mas descobrir que houve boa intenção já me ajudou muito a praticar o perdão. Eu já ouvi dizer que “uma verdade dita com má intenção bate todas as mentiras que se possa inventar”...
Além disso, aprendi um lema que diz: “Perdoe a mentira, mas nunca a falsidade.” Bem, aí temos que descobrir o limiar entre a mentira e a falsidade...
Pensando que também já praticamos mentiras e que as intenções ao praticá-las podem ser boas, talvez possamos levar esse assunto de forma mais leve...
Grande abraço!
Fabiana

Anônimo disse...

Lendo seu texto vários pensamentos (todos muito filosóficos e abstratos a ponto de não conseguir expressar com palavras) surgiram na minha cabeça... Para começo de conversa definir a verdade já é uma tarefa muito mais do que complicada. Não existe até hoje, não que eu conheça, um definição assertiva ou coletiva da verdade. Muitos filósofos tentaram escrever a respeito, mas nada foi adotado como verdade sobre a verdade. Sendo assim, nosso primeiro problema se estabelece aqui. Como eu acredito que ler é pensar com a cabeça de quem escreveu e quem escreve tem um ponto de vista único, o meu comentário sobre o seu texto será um problema. Pensando com a minha cabeça e não com a sua, a verdade é subjetiva. É tão particular e única que representa o mundo. O mundo que não deixa de ser uma representação individual de verdades pré-estabelecidas. Acerca da verdade são definidos pontos de vista daqueles que dividem um determinado contexto. Indo pela sua linha de raciocínio falar a verdade significa passar uma informação adiante de acordo com os fatos reais que aconteceram (mais um conceito super abstrato – realidade). Acho que a verdade a que você se refere tem muito mais a ver com a liberdade. Uma verdade moral e ética. Fato é que a verdade nada mais é que uma forma libertadora da ética. Dizer a verdade em muitos casos é um momento de liberdade de consciência, prova mais puro do egoísmo próprio de todo ser humano. Praticar mais verdades que inverdades não torna alguém mais honesto. Acho que eu, como qualquer ser humano, propriamente egoísta, honestamente acabo fazendo a escolha do julgamento. Julgo pelo que pelo meu conhecimento de realidade, pelas minhas experiências julga ser bom e verdadeiro. Agora quem de nós está certo, não sou eu que vou dizer. Muito porque o conceito de certo e errado é algo ainda mais abstrato!

Daniel Antonucci disse...

Pessoal,

As colocações foram todas fantásticas. Me ajudaram muito a refletir sobre verdade, liberdade, intenção, história de vida e níveis (existe isso?) de verdade. Como o assunto foi tão profundo, mereceu um novo post.

Abraços,
Daniel