segunda-feira, 23 de março de 2009

Fome-zero, cárie-zero, furo na roupa-zero...

Semana passada tive um papo muito interessante com um amigo e colaborador da Cadsoft, o Bernardo. Apenas para contextualizar, o Bernardo é afro-descendente e eu sou ítalo-descendente (existe isso?). Começamos a conversar, nem sei o porquê, sobre o regime de cotas e um provável protecionismo para classes (ou raças) menos favorecidas. Ao longo da conversa nosso papo acabou se desviando das cotas para o programa fome zero. O Bernardo é a favor do fome-zero (e vou me limitar a dizer isso, deixando o espaço deste blog para ele manifestar os seus motivos) e eu sou totalmente contra, no modelo que ele é apresentado atualmente. Tem uma velha história, que acho que aprendi com meu pai, que diz assim: 

“Temos que ensinar as pessoas a pescarem o seu próprio peixe, para que dependam única e exclusivamente de seu esforço para se alimentar, sobreviver, prosperar. Se damos o peixe, o dia que a nossa fonte secar, prejudicaremos também as pessoas que dependiam deste peixe e isso é irresponsabilidade da nossa parte.”

Apesar de ser uma história antiga e conhecida por muitos, ela é bem atual no contexto desta discussão. Em minha opinião, o fome-zero (e todos os programas assistencialistas) dão o peixe, mas não ensinam a pescar.  Ao entregar o peixe às famílias mais necessitadas, não expandimos suas possibilidades, limitando-as àquele peixe. Não criamos oportunidades, criamos dependência. Não criamos um “pais do futuro”, criamos um povo sem identidade, sem significado e facilmente manipulado. 

Até posso acreditar que a intenção do programa fome-zero foi boa, mas o formato, não foi. Em minha concepção o formato de um programa como este deve ser o da re-socialização. Numa primeira fase é valido dar comida, já que estão passando fome. Mas, num período determinado de tempo, temos que ensinar uma profissão, criar oportunidades de emprego e possibilitar às famílias que sejam responsáveis pelo seu próprio sustento. É um ciclo virtuoso de geração de pessoas mais conscientes, oportunidades de trabalho e conseqüente geração de riquezas para o país.

No dia seguinte a esta discussão, assistindo o Jornal “Bom dia Brasil” da rede Globo, logo lembrei do Bernardo ao ouvir a seguinte notícia: “Governo libera 40 milhões de reais para compra de escovas de dentes para a camada mais pobre da população”. Em minha visão, é o Cárie-zero. E depois disso? Virá o furo na roupa-zero, o sem teto-zero, o sem entretenimento-zero?

Temos que repensar este modelo de gestão de nosso país, para criamos uma nação mais consciente, menos manipulada e que luta e se orgulha ao alcançar seu sustento e sua prosperidade através de seu próprio esforço.


5 comentários:

Beicom disse...

Daniel, garantir acesso a saúde e educação é obrigação do governo. Os programas assistencialistas cumprem (da melhor forma que o Brasil conseguiu implementar) está obrigações. Estes programas não estamos passando pelo "bom" para chegar ao ótimo?
Não concordo com um governo paternalista, mas em algumas situações esta "ajuda" é a única fonte de sustento/educação/saúde para os mais pobres.
Não podemos negar que acesso de alguns grupos a serviços básicos e oportunidade de "melhora de vida" é bem diferente, não existe igualdade social (ou racial) no Brasil.
Enfim temos grupos sociais diferente com pontos de partidas diferentes em uma mesma corrida.

Anônimo disse...

Os programas assistencialistas são responsáveis pela sobrevivência da população.
Por mais que pareça estranho (será que parece?) o Brasil é um país de miseráveis e mortos-de-fome. Tem gente que realmente morre de fome...
Como é que você ensina um cara que tá morrendo de fome a pescar? Ele mal consegue ficar em pé, nunca teve acesso a educação.
Os programas assistencialistas fazem uma parte muito importante na sociedade, eles a mantêm viva.
Vamos imaginar a seguinte situação, uma espécie de teatro mental: imagine-se como um representante do governo onde sua responsabilidade é contar a uma família (só uma) que o governo vai cortar sua remessa de cesta básica de imediato e vai colocar os maiores de idade da família em um curso profissionalizante de 1 ano. A família em questão é composta da mãe e 4 filhos, sendo que o maior tem 5 anos.
Quantos filhos irão sobreviver até que a mãe esteja capacitada e empregada? Será que pelo menos um consegue?

Veja esse teatro em sua mente, você consegue ser o representante do governo com a "boa notícia"?

Os miseráveis precisam sim aprender a pescar, mas durante as próximas gerações (pelo menos), vamos ter que dar peixes a eles. Isso, é claro, se quisermos que eles sobrevivam. Talvez seja mais fácil simplesmente exterminar todos os mortos-de-fome de uma vez só, afinal de contas, eles atrasam o desenvolvimento desse país tão promissor...

Fabiana disse...

Ei Daniel,

Concordo plenamente com suas colocações. Conforme você mesmo disse, numa primeira fase é valido dar comida, já que estão passando fome. Ou seja, você deixou bem claro que a idéia não é mudar o formato de uma hora prá outra, e sim através de um processo gradual...

Enquanto se dá o peixe na boca por um período determinado de tempo, pode-se educar e criar oportunidades para que as famílias sejam responsáveis pelo seu próprio sustento no futuro.

Muito bacana a idéia do ciclo virtuoso...

É importante percebermos que você não estava falando apenas de sobrevivência da população, você pensou a longo prazo, pensou no desenvolvimento humano...

Certamente, sendo uma pessoa que adora ler e conhecer outras culturas, você se baseou nos inúmeros exemplos de outros países que já implantaram e estão, sem dúvida, colhendo os bons frutos do "ciclo virtuoso".

Parabéns pelo post.
Abraço,
Fabiana

Unknown disse...

Daniel,
Veja como um bom bate papo fomenta boas idéias e posicionamentos relevantes. Gostei bastante do texto que apresentou resumindo um pouco nossa conversa. Conforme comentado, acredito que as ações do governo apenas refletem o primeiro passo de uma série de mudanças necessárias.

Hoje o projeto Fome Zero atende milhares pessoas, mas infelizmente o Brasil vive a lei do mais esperto, ou seja, alguns tentam tirar proveito de uma boa ação, distorcendo ao objetivo inicial do projeto. Porém vejo que existem no Brasil dois estados do cidadão que merecem atenção, são eles: o estado de pobreza e o estado de miséria.

Quando se fala de ações como: melhorar educação da população, superação do ser humano, almejar evoluir profissionalmente e pessoalmente, ensinar a pescar, é importante entender para qual estado é estabelecida a relação. Especificamente, neste caso considero que estamos falando do estado de pobreza do cidadão brasileiro.

Entretanto, quando se fala de um projeto como Fome Zero, estamos falando do estado declarado de miséria. Compreendo que entender isso não é fácil, já que este estado não faz parte do mundo que vivemos, “Graças a Deus”. Contudo, não podemos fechar nossos olhos para isso. Existe sim, muita gente que precisa de um prato de comida. Destes não podemos exigir capacidade de raciocínio, visto que esta não é sua primeira necessidade.

Acho relevante exemplificar para tornar meu ponto de vista mais claro: Há seis anos participava de um projeto que atendia crianças carentes de um conglomerado de Belo Horizonte. Neste tínhamos os princípios apontados por você, Daniel. Porém, não conseguimos toda atenção dos meninos e eles estavam sempre muitos dispersos para conseguir absorver o conhecimento que passávamos. Após alguns bate-papos com as crianças percebeu-se que várias delas não tinham se alimentado antes de ir para o projeto. Conclusão: passamos a oferecer o lanche na chegada dos meninos ao invés de esperar um horário de intervalo. Num destes dias de lanche, vimos um menino passando muito mal depois de lanchar. Após uma pequena conversa, descobrimos que fazia dois dias que o menino não se alimentava.

Não foi fácil ver aquela cena!
Diante disso, compreendo bem a intenção do projeto e concordo com a iniciativa. Todavia, concordo com necessidade de uma revisão do seu formato.

Quanto à questão do projeto “Brasil Sorridente” existe mais coisas por trás desta ação. O projeto além de oferecer escova de dente, também fornece prótese dentária para o cidadão. Novamente, vejo algo importante nesta ação do governo. Vejamos o lado da pessoa mais pobre, que não consegue um emprego por conta de sua aparência. O estereótipo das pessoas é um diferencial quando está na procura de um emprego. Além disso, fazendo uma visão em médio prazo, lanço a questão: Quanto o governo está economizando ao lançar um projeto deste tipo, visto que problemas bucais geram vários outras doenças no corpo do ser humano?

Fica ai mais uma sugestão para um novo blog.

Abraços,
Bernardo José.

Daniel Antonucci disse...

Pessoal,

Agradeço a todos que colaboraram para o enriquecimento deste post.
Os pontos de vista aqui apresentados, sejam eles próximos ou antagônicos, mostram a pluralidade de idéias, concepções e experiências de pessoas das diferentes pessoas que compõem a nossa sociedade.

Como disse no post, acredito no ciclo virtuoso para emancipação do indivíduo e, se essa for a intenção dos atuais programas do governo, espero que no futuro tenhamos cidadãos mais conscientes.

Abraços,
Daniel